FIRMES NA ROCHA ETERNA
João Luís D. Mendes
"Aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática é semelhante a um homem prudente, que edificou sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela, porém, não caiu, porque estava edificada na rocha" (Mt 7, 24-25).
Eis aí um grande desafio de Deus à sua Igreja, hoje: viver uma "vida digna do Evangelho de Cristo" (Fl 1, 27). Acolher com docilidade e seriedade as palavras de Cristo, e traduzí-las com autenticidade em nossas vidas. Sair da teoria à prática, de ouvintes a executores dos ensinos de Cristo. Daí deriva o destino que nossa casa espiritual terá: salvação ou ruína. E quando paramos para pensar que vivemos dias de grande turbulência espiritual, e que não faltam, hoje, vendavais de seitas e doutrinas, enchentes de desesperanças, chuvas de sedução por toda parte, começamos a vislumbrar um perigo eminente: o risco de nossas vidas não estarem com seus alicerces firmes em Jesus.
O homem prudente, o cristão maduro, não pode contentar-se em só ouvir a Palavra de Deus, mas busca arrimar a sua caminhada sobre a rocha firme da verdade; já o insensato, o cristão carnal, costuma assentar sua casa na areia dos valores abstratos e instáveis deste mundo. O primeiro, em tempo de sofrimentos pessoais, tribulações financeiras e tempestades de doenças, resiste na fé e em tudo dá graças a Deus, como Jó. Nada pode detê-lo ou abalá-lo. Sua felicidade está incondicionalmente estabelecida em Jesus Cristo; o segundo abre a sua mala de murmúrio, reclamações e lamúrias, e não resiste às adversidades naturais da vida, cai.
É tempo de nos deixarmos moldar, podar, lapidar, transformar radicalmente segundo os moldes de Atos dos Apóstolos. A Igreja está precisando de cristãos íntegros e irrepreensíveis, e não de servos dissimulados, de "dupla atitude" (Tg 4, 8), que representam papéis e usam máscaras. Estas pessoas têm jeito de cristão, comportamento de cristão, falam como cristão, mas tudo isto não passa de aparências. São especialistas na arte de camuflagem. Sofrem da síndrome do camaleão: modificam a tonalidade de sua pele, conforme lhe sugere o ambiente. Quando estão na Igreja, são santos; longe dela, são do mundo. Cristãos assim, quando medidas na balança do padrão do cristianismo normal, estão sempre em débito. Eles são semelhantes no geral, mas divergem exatamente nos detalhes importantes; são parecidos no supérfluo, mas distintos no essencial, no básico, nos aspectos fundamentais.
O Senhor nos alerta que a decisão de seguir a Cristo está associada a uma atitude de obediência e entrega radical às suas Palavras. Afinal, Jesus Cristo é a Palavra de Deus, o Verbo de Deus encarnado, o "logos" do Pai. É pelas escrituras que conhecemos o Senhor. Ele é o Messias enviado, a "imagem do Deus invisível" (Cl 1, 15), o "resplendor de sua glória" (Hb 1, 3), o "cheio de graça e verdade" (Jó 1, 14), o Salvador e o Senhor de todas as coisas. "Ele é Pão, pois é carne; Videira, pois nos reuniu com seu sangue; Flor, enquanto é eleito; Via, enquanto nos leva ao céu; Porta, pois nos introduz diante de Deus; Monte, por sua fortaleza; Rocha, por sua solidez; Pedra Angular, porque uniu os muros da gentilidade e do judaísmo no mesmo edifício de sua Igreja ou porque pacificou em si os anjos e os homens; Fundamento, porque nele firma-se nossa fé, e se consolida a Igreja Católica; Cordeiro, por sua inocência; Ovelha, por sua paciência; Leão, por sua soberania e fortaleza; águia, porque, ressuscitado, subiu aos céus" (Santo Isidoro de Sevilha).
Jesus é o Alfa e o Ômega, o "que é, que era, o que vem, o Dominador" (Ap 1, 8).
Portanto, é urgente fazermos com que a Palavra de Deus se torne parte de nós. Ela é maná celestial, dieta de crescimento perfeito, alimento espiritual, pois "o cristão é gerado pela Palavra e precisa ser alimentado por ela" (William Gurnall). Como uma espada de dois gumes, ela apresenta a infeliz condição do homem longe do seu criador, e nos mostra a misericórdia e justificação de Deus, para com aqueles que o amam e críem em seu Santo Nome. Ela é como fogo que queima e martelo que despedaça (Jr 23, 29). É "lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho" (Sl 118, 105). O maior tesouro que o homem pode encontrar; uma jóia de raríssimo valor. É a nossa constituição e estilo simples de viver.
A Palavra tudo discerne, tudo penetra, tudo revela, tudo transforma, tudo vê. Nada lhe é oculto. Nada lhe é impossível. Seus sagrados ensinamentos devem estar sempre em nossos lábios para abençoar, construir, e plantar amor na vida das pessoas. De modo que, pela realização da Palavra em nós, as obras das trevas sejam desfeitas, os cativos libertos, os enfermos curados, e, assim, o mundo creia que somos discípulos de Jesus de Nazaré.
Amém!
João Luís D. Mendes é pregador, autor dos livros
Guerreiros em Ordem de Batalha e O Cerco do Camaleão.