"Sobre tuas muralhas, Jerusalém, coloquei vigias; nem de dia nem de noite, devem calar-se. Vós que deveis manter desperta a memória do Senhor, não vos concedais descanso algum e não o deixeis em paz, até que tenha restabelecido Jerusalém para dela fazer a glória da terra" (Is 62,6-7).
O Intercessor é alguém que vive entre o natural e o sobrenatural; vê as necessidades do povo sofrido e lança as asas da fé, contemplando pela fé a vitória que virá; que sonha alto e baseado nas promessas de Deus vive segundo a dinâmica da escada de Jacó: levar a Deus as necessidades da terra e fazer acontecer na terra os projetos que estão no coração de Deus.
Nós intercessores, somos o povo mais feliz da face da terra, apesar das dores, das dificuldades, dos sofrimentos, das incompreensões, porque recebemos de Deus uma missão mais que excelente: ficar diante do trono de Deus, em favor da história humana na terra. É Deus nos amando e nos fazendo amar conforme o seu coração; é esquecer de si e viver para fazer o outro feliz!!
Para realizar tão nobre missão, Deus escolheu um mecanismo tão simples: a oração. A oração é o ato mais maravilhoso e misterioso que podemos contemplar no reino espiritual. Não há nada que aconteça na terra, por intervenção do céu, que não seja conseqüência desta ação conjunta e harmoniosa entre Deus e seus intercessores. E quanto maior é esta intimidade, esse exercício de se deixar penetrar pela graça e amor de um Deus que tem sede de suas criaturas, mais a nossa intercessão se assemelha a de Jesus Cristo, se tornando uma entrega de vida pelos irmãos.
Orar é, portanto, é mecanismo espiritual e necessidade vital de todo cristão. É pela oração que nos comunicamos com Deus. Não se pode entender cristianismo sem oração, pois "oração e vida cristã são inseparáveis" (CIC 2745). Como diz São João Crisóstomo: "Assim como a alma dá vida ao corpo, assim também a oração mantém a vida da alma". No entanto, Deus está selecionando pessoas para um nível de oração mais eficaz. Ela não está centrada no tanto que se fala, no multiplicar de palavras, mas na busca sincera do próprio Deus. Oração eficaz começa e termina com homens rendidos diante do trono do Altíssimo.
Esta intercessão eficaz não consiste em formar um grupo de intercessão que faça um grande esforço para fazer com Deus faça aquilo que queremos, como se Deus fosse um servo nosso, mas em deixar com que os planos de Deus abram a nossa capacidade e poder de oração, alargando nosso alcance de vôo e dilatando as pupilas de nossos olhos espirituais para alvos mais abrangentes. A intercessão eficaz consiste sim em uma entrega de amizade sincera a Deus, entrando no mistério da comunhão com o Senhor, compreender seus sentimentos e ouvindo suas necessidades.
"Na Intercessão, aquele que ora não procura seus próprios interesses, mas pensa sobretudo nos dos outros' "(CIC 2635). Para o intercessor, portanto, o mais importante não é a resposta em si, nem ter seus problemas resolvidos, mas, tendo claro o alvo a ser atingido, as necessidades de Deus priorizadas na sua vida, ter a certeza de que o Senhor cuidará do que é seu. Quando agimos assim, Deus nos leva a compaixão, a solidariedade, a identificação com as necessidades dos irmãos. Nós somos ricamente abençoados e o Reino de Deus é edificado.
A vitória em oração é resultado, não daquilo que pedimos e somos atendidos, mas do acolhimento da vontade de Deus nas nossas vontades. Quando uma oração sai do coração do intercessor, tendo iniciado no trono de Deus, e a ele voltando, a resposta é garantida. Já podemos agradecer na certeza que alcançaremos o que pedimos. Esse tipo de oração, nascida em Deus, em seus planos, em seu coração, em sua vontade, trás consigo um enorme poder. Ele "é uma chave que abre as portas do céu" (Santo Agostinho) e "nada se compara em valor à oração; ela torna possível o que é impossível, fácil o que é difícil" (São João Crisóstomo).
Muitas vezes nossas orações não são prontamente respondidas porque elas precisam ser transformadas para atenderem aos objetivos do Reino de Deus, pois, como diz o apóstolo Tiago: "Pedis e não recebeis porque pedis mal, com o fim de satisfazerdes as vossas paixões" (Tg 4,3). Elas são egocêntricas e mostram quanto não nos importamos com os outros.
Portanto, irmãos, quando nos ajoelharmos para orar esta noite, tenhamos em mente que como intercessores somos seres privilegiados. Que somos pessoas que temos tanto acesso a Deus quanto um anjo ou arcanjo! Que recebemos a convocação divina para entrarmos na sala do Trono de Deus e regermos a história desta geração juntamente com Cristo. Nunca se esquecendo, no entanto, da primazia deste princípio básico da oração eficaz, que o próprio Jesus nos ensinou no Pai Nosso: "Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu". Amém.
João Luís D. Mendes é pregador da RCC, autor dos livros
Guerreiros em Ordem de Batalha e O Cerco do Camaleão.